Mutirão Carcerário do CNJ já permitiu a liberação de 20 mil presos em um ano e sete meses
O
Mutirão Carcerário, criado em 2008 por iniciativa do presidente do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF),
ministro Gilmar Mendes, já permitiu, no período entre agosto daquele
ano e abril de 2010, a expedição de alvarás de soltura de 20 mil presos
que já haviam cumprido a pena a que foram condenados ou se encontravam
privados de sua liberdade ilegalmente.
Este é um dos dados apresentados, nesta sexta-feira (16), no 12º
Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção ao Crime Justiça Criminal,
que se realiza em Salvador (BA), pelo conselheiro do CNJ Walter Nunes e
pelo juiz federal auxiliar do STF, Jairo Schäfer.
Segundo Jairo Schäfer, o Brasil, com 473 mil presos, tem uma das
mais altas taxas carcerárias do mundo, superadas apenas por poucos
países, entre os quais a Rússia e os Estados Unidos. Segundo ele, o
mutirão carcerário já permitiu a análise de 112 mil processos desses
presos e a concessão de 34.600 benefícios, incluindo alvarás de soltura
ou progressão do regime de prisão para semiaberto (com possibilidade de
trabalhar fora, retornando ao presídio à noite) ou aberto, com o preso
podendo dormir em casa, mas se apresentando periodicamente à autoridade
policial. Com isso, já se começou a aliviar os excessos da população
carcerária.
Eles informaram, ainda, que o programa “Começar de Novo”, também
criado por iniciativa do atual presidente do CNJ e STF com objetivo de
permitir a reinserção de ex-presos na sociedade, oferecendo-lhes
emprego, já permitiu colocar em postos de trabalho 2.000 presos e que a
expectativa é aumentar esse número para 7.000, até o fim deste ano.
Informaram, ainda, que o CNJ declarou o ano de 2010 “Ano da Justiça
Criminal”, significando a importância que decidiu atribuir ao tema.
Amanhã, o ministro Gilmar Mendes participará dos debates de alto nível
do Congresso, em que se negocia a redação da “Declaração de Salvador”,
o documento final a ser divulgado segunda-feira, por ocasião do
encerramento do evento.
Mutirões
O conselheiro do CNJ Walter Nunes informou que os mutirões
carcerários foram consequência de inspeções públicas realizadas por
iniciativa do conselho e que “revelaram uma inconsistência muito grande
no funcionamento da Justiça criminal”. Então, para sanar ou minorar os
problemas encontrados, o CNJ criou um grupo de trabalho incumbido de
elaborar um plano estratégico específico para as varas criminais.
A partir da constatação de que, no complexo sistema judiciário
brasileiro, composto por tribunais, todos eles com autonomia, não havia
um compartilhamento de experiências, nem mesmo a definição da
estratégia para enfrentar o problema, que na verdade é global,
concluiu-se que, para obter melhores resultados, a Justiça como um todo
precisa atuar com maior sintonia.
Segundo Nunes, constatou-se, também, que um grande problema da
execução penal é a falta de controle da população carcerária. Havia – e
ainda continua havendo – presos já com direito a benefício que não
deveriam mais estar na prisão. Por outro lado, o sistema de regime
aberto de cumprimento de pena é inadequado. Isto porque, além de o
formato atual não servir para ressocializar o preso, as pessoas sob
este regime não são controladas ou monitoradas quando em liberdade.
Diante disso, o CNJ propôs ao Congresso Nacional a introdução do
monitoramento eletrônico dos presos, já em vigor em alguns países, mas
ainda em debate no Brasil. Nesta quinta-feira, o ministro do STF Cezar
Peluso, que também participou do Congresso e preside grupo
latino-americano que elaborou proposta de uma convenção internacional
destinada a tornar obrigatória a obediência de regras mínimas no
tratamento de presos, ponderou que a questão precisa ser bem analisada,
levando em consideração os direitos humanos do preso.
Processo eletrônico
Na próxima segunda-feira, será inaugurado, em Natal, o sistema de
processo eletrônico elaborado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª
Região (TRF-4), com sede em Recife. Segundo o conselheiro do CCJ Walter
Nunes, o modelo do TRF-4 é melhor até agora desenvolvido e será
implantado em todo o país.
Com a generalização do processo eletrônico, a Justiça ganhará mais
celeridade, o que possibilitará acelerar, também, a revisão dos
processos dos detentos. Ele funcionará 24 horas por dia, todos os dias
da semana. Isto significa que qualquer advogado que quiser acessar um
processo poderá acessá-lo a qualquer hora, e um juiz, mesmo se
encontrando fora do país, poderá dar despachos em processos a ele
afetos.
Walter Nunes observou que “o grande o problema da prestação da
atividade jurisdicional em país de dimensões como o Brasil reside na
questão da comunicação”. Ele exemplificou essa dificuldade, no modelo
tradicional, por exemplo para ouvir uma pessoa na Amazônia ou no
Nordeste, se o processo está tramitando no Sul.
Lembrou que vários juízes já adotam, por exemplo, a
videoconferência, sem necessidade de deslocamento do preso para o local
da audiência. Por outro lado, a saída do modelo tradicional para o
eletrônico dá maior consistência, principalmente em recurso, quando o
processo vai para instâncias superiores, pois permite o contato direto
com a prova da forma como ela foi produzida.
Nunes apontou, também, as transformações que o novo sistema
permitirá na comunicação em regime de plantão, quando ocorre a prisão
de alguém em flagrante. Segundo ele, a ação própria da autoridade
policial é momento extremamente crítico. É quando a pessoa está no
cárcere, sem que tenha havido uma determinação judicial. Portanto,
requer rapidez.
No modelo tradicional, a polícia manda um calhamaço de papel para o
Judiciário. No regime de plantão, seja qual for a hora, o juiz
encaminha o processo para o Ministério Público (MP), e depois ocorre
toda a triangulação de retorno da forma de tramitação desses
documentos. Na forma eletrônica que começa a ser utilizada por alguns
juízes, tudo isso se faz por essa via: na hora em que a autoridade
policial encaminha o processo para o juiz, ela já a encaminha para o
MP. Isso abrevia, em muito, o tempo de apreciação final dos processos.
Nunes lembrou que, no CNJ, todos os processos são eletrônicos.
FONTE: Notícias STF